terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2015
“Fortalecei os vossos corações” (Tg 5, 8)
Amados irmãos e irmãs,
Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um «tempo favorável» de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.
Quando o povo de Deus se converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual me quero deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença.
Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar.
A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra. E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo n’Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida.
Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação.
1. «Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26): A Igreja.
Com o seu ensinamento e sobretudo com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode testemunhar algo que antes experimentamos. O cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem no-lo recorda a liturgia de Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa «tem a haver com Ele» (cf. Jo 13, 8), podendo assim servir o homem.
A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n’Ele, um não olha com indiferença o outro. «Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria» (1 Cor 12, 26).
A Igreja é communio sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é comunhão de coisas santas: o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar: rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação.
2. «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9): As paróquias e as comunidades
Tudo o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?
Para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direções.
Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já contemplar e rejubilar com o facto de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos caminham connosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só homem que sofra e gema, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja: «Muito espero não ficar inactiva no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas» (Carta 254, de 14 de Julho de 1897).
Também nós participamos dos méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.
Em segundo lugar, cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens.
Esta missão é o paciente testemunho d’Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. Act 1, 8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.
Amados irmãos e irmãs, como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!
3. «Fortalecei os vossos corações» (Tg 5, 8): Cada um dos fiéis
Também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência?
Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração.
Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum.
E, em terceiro lugar, o sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.
Para superar a indiferença e as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.
Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: «Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso» (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.
Com estes votos, asseguro a minha oração por cada crente e cada comunidade eclesial para que percorram, frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!
Vaticano, Festa de São Francisco de Assis,
4 de Outubro de 2014.
FRANCISCUS PP.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Oração da Campanha da Fraternidade 2015
Reze conosco!
Ó Pai,
Alegria e esperança de vosso povo,
vós conduzis a Igreja, servidora da vida,
nos caminhos da história.
A exemplo de Jesus Cristo
e ouvindo sua palavra
que chama à conversão,
seja vossa igreja testemunha viva de
fraternidade
e de liberdade, de justiça e de paz.
Enviai o vosso Espírito da verdade
para que a sociedade se abra
à aurora de um mundo justo e solidário,
sinal do Reino que há de vir.
Por Cristo Senhor nosso.
Amém!
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Ano da vida consagrada - Carta apostólica do Papa Francisco às pessoas consagradas
Carta apostólica do Papa Francisco às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada
Carta apostólica do Papa Francisco
às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada
Santa Sé
Consagradas e consagrados
caríssimos!
Escrevo-vos como Sucessor de
Pedro, a quem o Senhor Jesus confiou a tarefa de confirmar na fé os seus irmãos
(cf. Lc 22, 32), e escrevo-vos como vosso irmão, consagrado a Deus como vós.
Juntos, damos graças ao Pai, que
nos chamou para seguir Jesus na plena adesão ao seu Evangelho e no serviço da
Igreja e derramou nos nossos corações o Espírito Santo que nos dá alegria e nos
faz dar testemunho ao mundo inteiro do seu amor e da sua misericórdia.
Fazendo-me eco do sentir de
muitos de vós e da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as
Sociedades de Vida Apostólica, por ocasião do quinquagésimo aniversário da
Constituição dogmática Lumen gentium sobre a Igreja, que no capítulo VI trata
dos religiosos, bem como do Decreto Perfectae caritatis sobre a renovação da
vida religiosa, decidi proclamar um Ano da Vida Consagrada. Terá início no dia
30 do corrente mês de Novembro, I Domingo de Advento, e terminará com a festa
da Apresentação de Jesus no Templo a 2 de Fevereiro de 2016.
Depois de ter ouvido a Congregação
para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica,
indiquei como objetivos para este Ano os mesmos que São João Paulo II propusera
à Igreja no início do terceiro milênio, retomando, de certa forma, aquilo que
já havia indicado na Exortação pós-sinodal Vita consecrata: «Vós não tendes
apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a
construir! Olhai para o futuro, para o qual vos projeta o Espírito a fim de
realizar convosco ainda coisas maiores» (n. 110).
– I –
Os objetivos do Ano da Vida
Consagrada
1. O primeiro objetivo é olhar
com gratidão o passado. Cada um dos nossos Institutos provém duma rica história
carismática. Nas suas origens, está presente a ação de Deus que, no seu Espírito,
chama algumas pessoas para seguirem de perto a Cristo, traduzirem o Evangelho
numa forma particular de vida, lerem com os olhos da fé os sinais dos tempos,
responderem criativamente às necessidades da Igreja. Depois a experiência dos
inícios cresceu e desenvolveu-se, tocando outros membros em novos contextos
geográficos e culturais, dando vida a modos novos de implementar o carisma, a
novas iniciativas e expressões de caridade apostólica. É como a semente que se
torna árvore alargando os seus ramos.
Neste Ano, será oportuno que cada
família carismática recorde os seus inícios e o seu desenvolvimento histórico,
para agradecer a Deus que deste modo ofereceu à Igreja tantos dons que a tornam
bela e habilitada para toda a boa obra (cf. Lumen gentium, 12).
Repassar a própria história é
indispensável para manter viva a identidade e também robustecer a unidade da
família e o sentido de pertença dos seus membros. Não se trata de fazer
arqueologia nem cultivar inúteis nostalgias, mas de repercorrer o caminho das gerações
passadas para nele captar a centelha inspiradora, os ideais, os projetos, os
valores que as moveram, a começar dos Fundadores, das Fundadoras e das
primeiras comunidades. É uma forma também para se tomar consciência de como foi
vivido o carisma ao longo da história, que criatividade desencadeou, que
dificuldades teve de enfrentar e como foram superadas. Poder-se-á descobrir
incoerências, fruto das fraquezas humanas, e talvez mesmo qualquer esquecimento
de alguns aspectos essenciais do carisma. Tudo é instrutivo, tornando-se
simultaneamente apelo à conversão. Narrar a própria história é louvar a Deus e
agradecer-Lhe por todos os seus dons.
De modo particular,
agradecemos-Lhe por estes últimos 50 anos após o Concílio Vaticano II, que
representou uma «ventania» do Espírito Santo sobre toda a Igreja; graças ao
Concílio, de facto, a vida consagrada empreendeu um fecundo caminho de
renovação, o qual, com as suas luzes e sombras, foi um tempo de graça, marcado
pela presença do Espírito.
Que este Ano da Vida Consagrada
seja ocasião também para confessar, com humildade e simultaneamente grande
confiança em Deus Amor (cf. 1 Jo 4, 8), a própria fragilidade e para a viver
como experiência do amor misericordioso do Senhor; ocasião para gritar ao mundo
com força e testemunhar com alegria a santidade e a vitalidade presentes na
maioria daqueles que foram chamados a seguir Cristo na vida consagrada.
2. Além disso, este Ano chama-nos
a viver com paixão o presente. A lembrança agradecida do passado impele-nos,
numa escuta atenta daquilo que o Espírito diz hoje à Igreja, a implementar de
maneira cada vez mais profunda os aspectos constitutivos da nossa vida
consagrada.
Desde os inícios do primeiro
monaquismo até às «novas comunidades» de hoje, cada forma de vida consagrada
nasceu da chamada do Espírito para seguir a Cristo segundo o ensinamento do
Evangelho (cf. Perfectae caritatis, 2). Para os Fundadores e as Fundadoras, a
regra em absoluto foi o Evangelho; qualquer outra regra pretendia apenas ser
expressão do Evangelho e instrumento para o viver em plenitude. O seu ideal era
Cristo, aderir inteiramente a Ele podendo dizer com Paulo: «Para mim, viver é
Cristo» (Flp 1, 21); os votos tinham sentido apenas para implementar este seu
amor apaixonado.
A pergunta que somos chamados a
pôr neste Ano é se e como nos deixamos, também nós, interpelar pelo Evangelho;
se este é verdadeiramente o «vademecum» para a vida de cada dia e para as
opções que somos chamados a fazer. Isto é exigente e pede para ser vivido com
radicalismo e sinceridade. Não basta lê-lo (e no entanto a leitura e o estudo
permanecem de extrema importância), nem basta meditá-lo (e fazemo-lo com
alegria todos os dias); Jesus pede-nos para pô-lo em prática, para viver as
suas palavras.
Jesus – devemos perguntar-nos
ainda – é verdadeiramente o primeiro e o único amor, como nos propusemos quando
professamos os nossos votos? Só em caso afirmativo, poderemos – como é nosso
dever – amar verdadeira e misericordiosamente cada pessoa que encontramos no
nosso caminho, porque teremos aprendido d’Ele o que é o amor e como amar:
saberemos amar, porque teremos o seu próprio coração.
Os nossos Fundadores e Fundadoras
sentiram em si mesmos a compaixão que se apoderava de Jesus quando via as
multidões como ovelhas extraviadas sem pastor. Tal como Jesus, movido por tal
compaixão, comunicou a sua palavra, curou os doentes, deu o pão para comer,
ofereceu a sua própria vida, assim também os Fundadores se puseram ao serviço
da humanidade, à qual eram enviados pelo Espírito servindo-a dos mais diversos
modos: com a intercessão, a pregação do Evangelho, a catequese, a instrução, o
serviço aos pobres, aos doentes… A inventiva da caridade não conheceu limites e
soube abrir inúmeras estradas para levar o sopro da Evangelho às culturas e aos
sectores sociais mais diversos.
O Ano da Vida Consagrada
questiona-nos sobre a fidelidade à missão que nos foi confiada. Os nossos
serviços, as nossas obras, a nossa presença correspondem àquilo que o Espírito
pediu aos nossos Fundadores, sendo adequados para encalçar as suas finalidades
na sociedade e na Igreja atual? Há algo que devemos mudar? Temos a mesma paixão
pelo nosso povo, solidarizamo-nos com ele até ao ponto de partilhar as suas
alegrias e sofrimentos, a fim de podermos compreender verdadeiramente as suas
necessidades e contribuir com a nossa parte para lhes dar resposta? Como a seu
tempo pedia São João Paulo II, «a mesma generosidade e abnegação que impeliram
os Fundadores devem levar-vos a vós, seus filhos espirituais, a manter vivos os
seus carismas, que continuam – com a mesma força do Espírito que os suscitou –
a enriquecer-se e adaptar-se, sem perder o seu caráter genuíno, para se porem
ao serviço da Igreja e levarem à plenitude a implantação do seu Reino»[1].
Ao recordar as origens, há que
evidenciar mais um componente do projecto de vida consagrada. Os Fundadores e
as Fundadoras viviam fascinados pela unidade dos Doze ao redor de Jesus, pela
comunhão que caracterizava a primeira comunidade de Jerusalém. Cada um deles,
ao dar vida à sua comunidade, pretendeu reproduzir tais modelos evangélicos,
formar um só coração e uma só alma, gozar da presença do Senhor (cf. Perfectae
caritatis, 15).
Viver com paixão o presente
significa tornar-se «peritos em comunhão», ou seja, «testemunhas e artífices
daquele “projeto de comunhão” que está no vértice da história do homem segundo
Deus»[2]. Numa sociedade marcada pelo conflito, a convivência difícil entre
culturas diversas, a prepotência sobre os mais fracos, as desigualdades, somos
chamados a oferecer um modelo concreto de comunidade que, mediante o
reconhecimento da dignidade de cada pessoa e a partilha do dom que cada um é
portador, permita viver relações fraternas.
Por isso, sede mulheres e homens
de comunhão, marcai presença com coragem onde há disparidades e tensões, e sede
sinal credível da presença do Espírito que infunde nos corações a paixão por
todos serem um só (cf. Jo 17, 21). Vivei a mística do encontro: a capacidade de
ouvir atentamente as outras pessoas; «a capacidade de procurar juntos o
caminho, o método»[3], deixando-vos iluminar pelo relacionamento de amor que se
verifica entre as três Pessoas divinas (cf. 1 Jo 4, 8) e tomando-o como modelo
de toda a relação interpessoal.
3. Abraçar com esperança o futuro
é o terceiro objetivo que se pretende neste Ano. Conhecemos as dificuldades que
enfrenta a vida consagrada nas suas diversas formas: a diminuição das vocações
e o envelhecimento, especialmente no mundo ocidental, os problemas econômicos
na sequência da grave crise financeira mundial, os desafios da
internacionalidade e da globalização, as insídias do relativismo, a
marginalização e a irrelevância social… É precisamente nestas incertezas, que
partilhamos com muitos dos nossos contemporâneos, que se atua a nossa
esperança, fruto da fé no Senhor da história que continua a repetir-nos: «Não
terás medo (…), pois Eu estou contigo» (Jr 1, 8).
A esperança de que falamos não se
funda sobre números ou sobre as obras, mas sobre Aquele em quem pusemos a nossa
confiança (cf. 2 Tm 1, 12) e para quem «nada é impossível» (Lc 1, 37). Esta é a
esperança que não desilude e que permitirá à vida consagrada continuar a
escrever uma grande história no futuro, para o qual se deve voltar o nosso
olhar, cientes de que é para ele que nos impele o Espírito Santo a fim de
continuar a fazer, connosco, grandes coisas.
Não cedais à tentação dos números
e da eficiência, e menos ainda à tentação de confiar nas vossas próprias
forças. Com atenta vigilância, perscrutai os horizontes da vossa vida e do
momento atual. Repito-vos com Bento XVI: «Não vos unais aos profetas de
desventura, que proclamam o fim ou a insensatez da vida consagrada na Igreja
dos nossos dias; pelo contrário, revesti-vos de Jesus Cristo e muni-vos das
armas da luz – como exorta São Paulo (cf. Rm 13, 11-14) –, permanecendo
acordados e vigilantes»[4]. Prossigamos, retomando sempre o nosso caminho com
confiança no Senhor.
Dirijo-me sobretudo a vós, jovens.
Sois o presente, porque viveis já activamente dentro dos vossos Institutos,
prestando uma decisiva contribuição com o frescor e a generosidade da vossa
opção. Ao mesmo tempo sois o seu futuro, porque em breve sereis chamados a
tomar nas vossas mãos a liderança da animação, da formação, do serviço, da
missão. Este Ano há-de ver-vos protagonistas no diálogo com a geração que vai à
vossa frente; podereis, em comunhão fraterna, enriquecer-vos com a sua
experiência e sabedoria e, ao mesmo tempo, repropor-lhe o ideal que conheceu no
seu início, oferecer o ímpeto e o frescor do vosso entusiasmo, a fim de
elaborardes em conjunto novos modos de viver o Evangelho e respostas cada vez
mais adequadas às exigências de testemunho e de anúncio.
Fico feliz em saber que ides ter
ocasiões para vos encontrardes entre vós, jovens dos diferentes Institutos. Que
o encontro se torne caminho habitual de comunhão, de apoio mútuo, de unidade.
– II –
As expectativas para o Ano da
Vida Consagrada
Que espero eu, em particular,
deste Ano de graça da vida consagrada?
1. Que seja sempre verdade aquilo
que eu disse uma vez: «Onde estão os religiosos, há alegria». Somos chamados a
experimentar e mostrar que Deus é capaz de preencher o nosso coração e fazer-nos
felizes sem necessidade de procurar noutro lugar a nossa felicidade, que a
autêntica fraternidade vivida nas nossas comunidades alimenta a nossa alegria,
que a nossa entrega total ao serviço da Igreja, das famílias, dos jovens, dos
idosos, dos pobres nos realiza como pessoas e dá plenitude à nossa vida.
Que entre nós não se vejam rostos
tristes, pessoas desgostosas e insatisfeitas, porque «um seguimento triste é um
triste seguimento». Também nós, como todos os outros homens e mulheres,
sentimos dificuldades, noites do espírito, desilusões, doenças, declínio das
forças devido à velhice. Mas, nisto mesmo, deveremos encontrar a «perfeita
alegria», aprender a reconhecer o rosto de Cristo, que em tudo Se fez
semelhante a nós e, consequentemente, sentir a alegria de saber que somos
semelhantes a Ele que, por nosso amor, não Se recusou a sofrer a cruz.
Numa sociedade que ostenta o
culto da eficiência, da saúde, do sucesso e que marginaliza os pobres e exclui
os «perdedores», podemos testemunhar, através da nossa vida, a verdade destas
palavras da Escritura: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12,
10).
Bem podemos aplicar à vida
consagrada aquilo que escrevi na Exortação apostólica Evangelii gaudium,
citando uma homilia de Bento XVI: «A Igreja não cresce por proselitismo, mas
por atração» (n. 14). É verdade! A vida consagrada não cresce, se organizarmos
belas campanhas vocacionais, mas se as jovens e os jovens que nos encontram se
sentirem atraídos por nós, se nos virem homens e mulheres felizes! De igual
forma, a eficácia apostólica da vida consagrada não depende da eficiência e da
força dos seus meios. É a vossa vida que deve falar, uma vida da qual
transparece a alegria e a beleza de viver o Evangelho e seguir a Cristo.
O que disse aos Movimentos
eclesiais, na passada Vigília de Pentecostes, repito-o aqui para vós também:
«Fundamentalmente, o valor da Igreja é viver o Evangelho e dar testemunho da
nossa fé. A Igreja é sal da terra, é luz do mundo; é chamada a tornar presente
na sociedade o fermento do Reino de Deus; e fá-lo, antes de mais nada, por meio
do seu testemunho: o testemunho do amor fraterno, da solidariedade, da
partilha» (18 de Maio de 2013).
2. Espero que «desperteis o
mundo», porque a nota característica da vida consagrada é a profecia. Como
disse aos Superiores Gerais, «a radicalidade evangélica não é própria só dos
religiosos: é pedida a todos. Mas os religiosos seguem o Senhor de uma maneira
especial, de modo profético». Esta é a prioridade que agora se requer: «ser
profetas que testemunham como viveu Jesus nesta terra (…). Um religioso não
deve jamais renunciar à profecia» (29 de Novembro de 2013).
O profeta recebe de Deus a
capacidade de perscrutar a história em que vive e interpretar os
acontecimentos: é como uma sentinela que vigia durante a noite e sabe quando
chega a aurora (cf. Is 21, 11-12). Conhece a Deus e conhece os homens e as
mulheres, seus irmãos e irmãs. É capaz de discernimento e também de denunciar o
mal do pecado e as injustiças, porque é livre, não deve responder a outros
senhores que não seja a Deus, não tem outros interesses além dos de Deus.
Habitualmente o profeta está da parte dos pobres e indefesos, porque sabe que o
próprio Deus está da parte deles.
Deste modo espero que saibais,
sem vos perder em vãs «utopias», criar «outros lugares» onde se viva a lógica
evangélica do dom, da fraternidade, do acolhimento da diversidade, do amor
recíproco. Mosteiros, comunidades, centros de espiritualidade, cidadelas,
escolas, hospitais, casas-família e todos aqueles lugares que a caridade e a
criatividade carismática fizeram nascer – e ainda farão nascer, com nova
criatividade –, devem tornar-se cada vez mais o fermento para uma sociedade
inspirada no Evangelho, a «cidade sobre o monte» que manifesta a verdade e a força
das palavras de Jesus.
Às vezes, como aconteceu com
Elias e Jonas, pode vir a tentação de fugir, de subtrair-se ao dever de
profeta, porque é demasiado exigente, porque se está cansado, desiludido com os
resultados. Mas o profeta sabe que nunca está sozinho. Também a nós, como fez a
Jeremias, Deus assegura: «Não terás medo (…), pois Eu estou contigo para te
livrar» (Jr 1, 8).
3. Os religiosos e as religiosas,
como todas as outras pessoas consagradas, são chamados a ser «peritos em
comunhão». Assim, espero que a «espiritualidade da comunhão», indicada por São
João Paulo II, se torne realidade e que vós estejais na vanguarda abraçando «o
grande desafio que nos espera» neste novo milênio: «fazer da Igreja a casa e a
escola da comunhão»[5]. Estou certo de que, neste Ano, trabalhareis a sério
para que o ideal de fraternidade perseguido pelos Fundadores e pelas Fundadoras
cresça, nos mais diversos níveis, como que em círculos concêntricos.
A comunhão é praticada, antes de
mais nada, dentro das respectivas comunidades do Instituto. A este respeito,
convido-vos a reler frequentes intervenções minhas onde não me canso de repetir
que críticas, bisbilhotices, invejas, ciúmes, antagonismos são comportamentos
que não têm direito de habitar nas nossas casas. Mas, posta esta premissa, o
caminho da caridade que se abre diante de nós é quase infinito, porque se trata
de buscar a aceitação e a solicitude recíprocas, praticar a comunhão dos bens
materiais e espirituais, a correção fraterna, o respeito pelas pessoas mais frágeis…
É «a “mística” de viver juntos» que faz da nossa vida «uma peregrinação
sagrada»[6]. Tendo em conta que as nossas comunidades se tornam cada vez mais
internacionais, devemos questionar-nos também sobre o relacionamento entre as
pessoas de culturas diferentes. Como consentir a cada um de se exprimir, ser
acolhido com os seus dons específicos, tornar-se plenamente corresponsável?
Além disso, espero que cresça a
comunhão entre os membros dos diferentes Institutos. Não poderia este Ano ser
ocasião de sair, com maior coragem, das fronteiras do próprio Instituto para se
elaborar em conjunto, a nível local e global, projectos comuns de formação, de
evangelização, de intervenções sociais? Poder-se-á assim oferecer, de forma
mais eficaz, um real testemunho profético. A comunhão e o encontro entre
diferentes carismas e vocações é um caminho de esperança. Ninguém constrói o
futuro isolando-se, nem contando apenas com as próprias forças, mas
reconhecendo-se na verdade de uma comunhão que sempre se abre ao encontro, ao
diálogo, à escuta, à ajuda mútua e nos preserva da doença da
auto-referencialidade.
Ao mesmo tempo, a vida consagrada
é chamada a procurar uma sinergia sincera entre todas as vocações na Igreja, a
começar pelos presbíteros e os leigos, a fim de «fazer crescer a
espiritualidade da comunhão, primeiro no seu seio e depois na própria
comunidade eclesial e para além dos seus confins»[7].
4. Espero ainda de vós o mesmo
que peço a todos os membros da Igreja: sair de si mesmo para ir às periferias
existenciais. «Ide pelo mundo inteiro» foi a última palavra que Jesus dirigiu
aos seus e que continua hoje a dirigir a todos nós (cf. Mc 16, 15). A
humanidade inteira aguarda: pessoas que perderam toda a esperança, famílias em
dificuldade, crianças abandonadas, jovens a quem está vedado qualquer futuro,
doentes e idosos abandonados, ricos saciados de bens mas com o vazio no
coração, homens e mulheres à procura do sentido da vida, sedentos do divino…
Não vos fecheis em vós mesmos,
não vos deixeis asfixiar por pequenas brigas de casa, não fiqueis prisioneiros
dos vossos problemas. Estes resolver-se-ão se sairdes para ajudar os outros a
resolverem os seus problemas, anunciando-lhes a Boa Nova. Encontrareis a vida
dando a vida, a esperança dando esperança, o amor amando.
De vós espero gestos concretos de
acolhimento dos refugiados, de solidariedade com os pobres, de criatividade na
catequese, no anúncio do Evangelho, na iniciação à vida de oração.
Consequentemente almejo a racionalização das estruturas, a reutilização das
grandes casas em favor de obras mais cônsonas às exigências atuais da
evangelização e da caridade, a adaptação das obras às novas necessidades.
5. Espero que cada forma de vida
consagrada se interrogue sobre o que pedem Deus e a humanidade de hoje.
Os mosteiros e os grupos de
orientação contemplativa poderiam encontrar-se entre si ou conectar-se nos mais
variados modos, para trocarem entre si as experiências sobre a vida de oração,
o modo como crescer na comunhão com toda a Igreja, como apoiar os cristãos
perseguidos, como acolher e acompanhar as pessoas que andam à procura duma vida
espiritual mais intensa ou necessitam de um apoio moral ou material.
O mesmo poderão fazer os
Institutos caritativos, dedicados ao ensino, à promoção da cultura, aqueles que
estão lançados no anúncio do Evangelho ou desempenham particulares serviços
pastorais, os Institutos Seculares com a sua presença capilar nas estruturas
sociais. A inventiva do Espírito gerou modos de vida e obras tão diferentes que
não podemos facilmente catalogá-los ou inseri-los em esquemas pré-fabricados.
Por isso, não consigo referir cada uma das inúmeras formas carismáticas. Mas, neste
Ano, ninguém deveria subtrair-se a um sério controle sobre a sua presença na
vida da Igreja e sobre o seu modo de responder às incessantes e novas
solicitações que se levantam ao nosso redor, ao clamor dos pobres.
Só com esta atenção às
necessidades do mundo e na docilidade aos impulsos do Espírito é que este Ano
da Vida Consagrada se tornará um autêntico kairòs, um tempo de Deus rico de
graças e de transformação.
– III –
Os horizontes do Ano da Vida
Consagrada
1. Com esta minha carta, além das
pessoas consagradas, dirijo-me aos leigos que, com elas, partilham ideais,
espírito, missão. Alguns Institutos religiosos possuem uma antiga tradição a
tal respeito, outros uma experiência mais recente. Na realidade, à volta de
cada família religiosa, bem como das Sociedades de Vida Apostólica e dos
próprios Institutos Seculares, está presente uma família maior, a «família
carismática», englobando os vários Institutos que se reconhecem no mesmo
carisma e sobretudo os cristãos leigos que se sentem chamados, precisamente na
sua condição laical, a participar da mesma realidade carismática.
Encorajo-vos também a vós,
leigos, a viver este Ano da Vida Consagrada como uma graça que pode tornar-vos
mais conscientes do dom recebido. Celebrai-o com toda a «família», para
crescerdes e responderdes juntos aos apelos do Espírito na sociedade actual. Em
determinadas ocasiões, quando os consagrados de vários Institutos se reunirem
uns com os outros neste Ano, procurai estar presente também vós como expressão
do único dom de Deus, a fim de conhecer as experiências das outras famílias
carismáticas, dos outros grupos de leigos e assim vos enriquecerdes e
sustentardes mutuamente.
2. O Ano da Vida Consagrada não
diz respeito apenas às pessoas consagradas, mas à Igreja inteira. Assim
dirijo-me a todo o povo cristão, para que tome cada vez maior consciência do
dom que é a presença de tantas consagradas e consagrados, herdeiros de grandes
Santos que fizeram a história do cristianismo. Que seria a Igreja sem São Bento
e São Basílio, sem Santo Agostinho e São Bernardo, sem São Francisco e São
Domingos, sem Santo Inácio de Loyola e Santa Teresa de Ávila, sem Santa Ângela
Merícia e São Vicente de Paulo? E a lista tornar-se-ia quase infinita, até São
João Bosco, a Beata Teresa de Calcutá. O Beato Paulo VI afirmava: «Sem este
sinal concreto, a caridade que anima a Igreja inteira correria o risco de se
resfriar, o paradoxo salvífico do Evangelho de se atenuar, o “sal” da fé de se
diluir num mundo em fase de secularização» (Evangelica testificatio, 3).
Por isso, convido todas as
comunidades cristãs a viverem este Ano, procurando antes de mais nada agradecer
ao Senhor e, reconhecidas, recordar os dons que foram recebidos, e ainda
recebemos, por meio da santidade dos Fundadores e das Fundadoras e da
fidelidade de tantos consagrados ao seu próprio carisma. A todos vos convido a
estreitar-vos ao redor das pessoas consagradas, rejubilar com elas, partilhar
as suas dificuldades, colaborar com elas, na medida do possível, para a
prossecução do seu serviço e da sua obra, que são aliás os da Igreja inteira.
Fazei-lhes sentir o carinho e o encorajamento de todo o povo cristão.
Bendigo o Senhor pela feliz
coincidência do Ano da Vida Consagrada com o Sínodo sobre a família. Família e
vida consagrada são vocações portadoras de riqueza e graça para todos, espaços
de humanização na construção de relações vitais, lugares de evangelização.
Podem-se ajudar uma à outra.
3. Com esta minha carta, ouso
dirigir-me também às pessoas consagradas e aos membros de fraternidades e
comunidades pertencentes a Igrejas de tradição diversa da católica. O
monaquismo é um patrimônio da Igreja indivisa, bem vivo até agora quer nas
Igrejas ortodoxas quer na Igreja católica. Nele bem como nas sucessivas experiências do tempo em que a Igreja do
Ocidente ainda estava unida, se inspiram iniciativas análogas surgidas no
âmbito das Comunidades eclesiais da Reforma, tendo estas continuado a gerar no
seu seio novas expressões de comunidades fraternas e de serviço.
A Congregação para os Institutos
de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica tem em programa
iniciativas para fazer encontrar os membros pertencentes a experiências de vida
consagrada e fraterna das diversas Igrejas. Encorajo calorosamente estes encontros,
para que cresça o conhecimento mútuo, a estima, a cooperação recíproca, de modo
que o ecumenismo da vida consagrada sirva de ajuda para o caminho mais amplo
rumo à unidade entre todas as Igrejas.
4. Não podemos esquecer também
que o fenômeno do monaquismo e doutras expressões de fraternidade religiosa
está presente em todas as grandes religiões. Não faltam experiências, mesmo
consolidadas, de diálogo inter-monástico da Igreja católica com algumas das
grandes tradições religiosas. Faço votos de que o Ano da Vida Consagrada seja
ocasião para avaliar o caminho percorrido, sensibilizar as pessoas consagradas
neste campo, questionar-nos sobre os novos passos a dar para um conhecimento
recíproco cada vez mais profundo e uma colaboração crescente em muitos âmbitos
comuns do serviço à vida humana.
Caminhar juntos é sempre um
enriquecimento e pode abrir caminhos novos nas relações entre povos e culturas
que, neste período, aparecem carregadas de dificuldades.
5. Por fim dirijo-me, de modo
particular, aos meus irmãos no episcopado. Que este Ano seja uma oportunidade
para acolher, cordial e jubilosamente, a vida consagrada como um capital
espiritual que contribua para o bem de todo o corpo de Cristo (cf. Lumen
gentium, 43) e não só das famílias religiosas. «A vida consagrada é dom feito à
Igreja: nasce na Igreja, cresce na Igreja, está totalmente orientada para a
Igreja»[8]. Por isso, enquanto dom à Igreja, não é uma realidade isolada ou
marginal, mas pertence intimamente a ela, situa-se no próprio coração da
Igreja, como elemento decisivo da sua missão, já que exprime a natureza íntima
da vocação cristã e a tensão de toda a Igreja-Esposa para a união com o único
Esposo; portanto «está inabalavelmente ligada à sua vida e santidade» (Ibid.,
44).
Neste contexto, convido-vos, a
vós Pastores das Igrejas particulares, a uma especial solicitude em promover
nas vossas comunidades os diferentes carismas, tanto os históricos como os
novos carismas, apoiando, animando, ajudando no discernimento, acompanhando com
ternura e amor as situações de sofrimento e fraqueza em que se possam encontrar
alguns consagrados, e sobretudo esclarecendo com o vosso ensino o povo de Deus
sobre o valor da vida consagrada, de modo a fazer resplandecer a sua beleza e
santidade na Igreja.
A Maria, Virgem da escuta e da
contemplação, primeira discípula do seu amado Filho, confio este Ano da Vida
Consagrada. Para Ela, filha predileta do Pai e revestida de todos os dons da
graça, olhamos como modelo insuperável de seguimento no amor a Deus e no serviço
do próximo.
Agradecido desde já, com todos vós, pelos dons de graça e de
luz com que o Senhor quiser enriquecer-nos, acompanho-vos a todos com a Bênção
Apostólica.
Vaticano, 21 de Novembro – Festa da Apresentação de Maria –
do ano 2014.
Francisco
[3] Discurso aos reitores e estudantes dos Pontifícios Colégios e Internatos de Roma (12 de Maio de 2014): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 22/V/2014), 11.
[4] Homilia na Festa da Apresentação de Jesus no Templo (2 de Fevereiro de 2013): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 10/II/2013), 11.
[5] Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 43: L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 13/I/2001), 25.
[6] Carta ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 87.
[7] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata (25 de Março de 1996), 51: L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 30/III/1996), 149.
[8] D. Jorge Mário Bergoglio, Intervenção no Sínodo sobre a vida consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo (XVI congregação geral, 13 de Outubro de 1994).
Dra. Zilda Arns: Vida plena para todas as crianças
Mais de 32 mil pessoas de todos os estados reuniram-se na noite de sábado, 10, na Arena da Baixada, Curitiba (PR), para homenagear a obra e a vida da médica Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança. Durante a “Celebração Dra. Zilda Vida plena para todas as crianças”, líderes da Pastoral de todo o Brasil e admiradores do trabalho de Zilda reafirmaram o compromisso com a proteção da infância e manifestaram apoio ao pedido de beatificação da médica.
A celebração eucarística conduzida por dom Raymundo Damasceno, presidente da Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), contou com a presença de mais de 20 bispos de vários municípios brasileiros e autoridades municipais e estaduais, entre elas o prefeito Gustavo Fruet, e o ex-vice-governador do Paraná, Flávio Arns, sobrinho de Zilda, representando o governador Beto Richa.
Hoje, a Pastoral atende 1,2 milhões de crianças de até seis anos; um milhão de famílias cadastradas e 73 mil gestantes. Quem torna esse trabalho possível é uma rede de 200 mil voluntários atuantes em 36 mil comunidades brasileiras. A Pastoral, criada em 1983, também está presente em 21 países. O trabalho da organização é fundado na luta pela redução da mortalidade infantil.
Segundo a irmã Vera Lúcia Altoé, coordenadora nacional da Pastoral, a mortalidade continua sendo desafio, mas há também que se lutar contra a obesidade, as altas taxas de nascimentos prematuros e de partos cesáreas e pelo desenvolvimento pleno da infância, com menos desigualdade.
Beatificação
De acordo com Nelson Arns, coordenador nacional adjunto da Pastoral da Criança e filho de Zilda, o evento foi resultado da mobilização que envolveu lideranças da organização de todo o país para a coleta de assinaturas para a moção de apoio à beatificação. O documento com mais de 130 mil assinaturas foi entregue à Arquidiocese de Curitiba; o próximo passo será o encaminhamento do processo completo para o Vaticano.
Fonte: Gazeta do Povo
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Sri Lanka e Filipinas - 12-19 de janeiro de 2015
A próxima viagem apostólica internacional do Papa Francisco será a sétima do seu Pontificado: o Santo Padre vai ao Sri Lanka e depois às Filipinas, de 12 a 19 deste mês de janeiro. Padre Federico Lombardi, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, explicou aos jornalistas o programa desta viagem:
“No que se refere às Filipinas, sabemos que foi também a insistência dos bispos filipinos de receber o Papa, inclusive como conforto após o desastre imenso do tufão de um ano atrás, que causou danos imensos. Fala-se de oito mil mortos, 15 milhões de pessoas atingidas nas destruições provocadas pelo tufão, cinquenta mil casas destruídas. É considerado um dos piores tufões da história, pelo menos que se recorde. E tudo isso levou naturalmente a pedir a presença do Papa como conforto, como compaixão por um povo muito sofrido. Também no Sri Lanka havia o desejo de receber o Papa, o desejo da Canonização do Padre Vaz, de receber a sua contribuição para a pacificação do país. Em suma, toda uma série de motivos que deram ao Papa – com toda essa sua atenção particular pela Ásia – razões suficientes para a viagem.”
No Sri Lanka
Papa passará dois dias no Sri Lanka, 13 e 14 de janeiro. Entre os momentos mais importantes o encontro inter-religioso na capital Colombo. Na quarta-feira, a missa da Canonização de José Vaz, religioso oratoriano que viveu entre os séculos XVII e XVIII, que realizou uma importante obra de evangelização no Sri Lanka. De seguida, será a oração mariana no Santuário de Nossa Senhora do Rosário em Madhu, o mais frequentado do país, localizado ao norte, de maioria Tâmil. O Padre Lombardi ressaltou que nessa ocasião o Papa se fará presente também tendo em conta o processo de reconciliação no Sri Lanka, após o longuíssimo e terrível conflito entre cingaleses e tâmiles. Um período de conflito que durou trinta anos e que terminou em 2009.
No dia 15 o Santo Padre partirá para as Filipinas, que se preparam para os 500 anos de evangelização em 2021. Na sexta-feira, 16, de destacar os encontros previstos para Manila sobretudo com as famílias, realidade central nas Filipinas, o maior país asiático de maioria católica. O Padre Lombardi sublinhou este aspeto:
“É preciso considerar também a importância que a cultura familiar tem na cultura filipina, importância fundamental, o modo muito intenso como se vive a realidade da família e os seus laços por parte da cultura filipina.”
O Santo Padre visitará as zonas atingidas pelo tufão Haiyan e celebrará Missa em Tacloban; em Palo almoçará com alguns sobreviventes e abençoará o “Centro Papa Francisco” dedicado aos pobres, construído com contribuições do Conselho Pontifício Cor Unum.
No domingo, 18 de janeiro, na capital filipina será o encontro com os líderes religiosos locais, com os jovens e a missa no dia do “Santo Niño”. Na segunda-feira, dia 19, na parte da tarde, será o regresso ao Vaticano, após ter sobrevoado vários países, entre os quais a China. (RS)
Fonte: www.news.va
Paulinas Comunica: Entrevista com o papa Francisco: Igreja dos pobres...
Paulinas Comunica: Entrevista com o papa Francisco: Igreja dos pobres...: Antecipamos aqui um trecho de Papa Francesco. Questa economia uccide [Papa Francisco. Esta economia mata], o livro sobre o magistério so...
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